Contexto inicial

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Esse é um texto que já nasceu póstumo.

Como ficou claro pelos meus dois textos anteriores, Inicio Do Hardening - Root criptografado e Minha Primeira Experiencia Com Borg Backup, eu tenho uma genuína admiração pelo movimento Cypherpunk. Naturalmente, não poderia ser diferente com o movimento de software livre, que foi fundado e é até hoje impulsionado principalmente pela Free Software Foundation (FSF), sendo seu maior expoente o estadunidense Richard Matthew Stallman (RMS).

Para aqueles que desejam se aprofundar nas questões referentes ao projeto GNU e as questões relacionadas a licenciamento de software, eu recomendo a leitura do livro Free Software, Free Society, que é um coletanea de ensaios do próprio Stallman. E, por fim, para aqueles que desejam se aprofundar na biografia e no trabalho do Stallman, recomendo livro Free as in Freedom - Richard Stallman’s Crusade for Free Software

Breve resumo do texto

O texto descreve a trajetória de Dan Halbert, que se encontra inicialmente em um dilema:

Emprestar ou não seu computador para Lissa Lenz, o qual ele era apaixonado

Por que isso é um dilema? Simples, imagine se todos os produtores (nesse caso os produtos são os livros) fossem iguais a Nintendo. Ou seja, se você pudesse ser preso por violar a propriedade intelectual de qualquer produto. No caso, até mesmo o uso de um debugger era extremamente restritivo, afinal, você poderia usar ele para burlar proteções de licenciamento de software.

Por fim, cedendo a sua paixão, Dan, além de emprestar seu computador também disse sua senha. Assim, o órgão responsável por verificar quem estava acessando determinado livro (a saber, Software Protection Authority ou SPA) não ficaria automaticamente sabendo que era Lissa quem os estava lendo (sem falar na questão de negabilidade plausível). Assim ela decide se casar com ele, e ambos se tornaram especie de ativistas contra o licenciamento agressivo, defendendo, no “Levante de Tycho” (2062), o direito universal à leitura.

Uma crítica

Francamente? Eu não acho o texto bom. Ele consegue comunicar bem a mensagem, de que se não houver um movimento de resistência, as medidas draconianas relacionadas a licenciamento vão se intensificar até desaguar em um cenário distópico. Mas de uma forma nenhum pouco sútil, com personagens pouco desenvolvidos e sem um plot realmente interessante. Veja, Stallman é um ideólogo e não um escritor, contudo, como este é um texto literário acredito que seja valida a crítica.

Alguns exemplos melhores

Abaixo enumero alguns exemplos de livros e contos que julgo que fizeram um trabalho, em termos literários, melhor em comunicar a sua mensagem.

Fahrenheit 451

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Spoilers de Farenheit 451 abaixo

Um livro que eu julgo que capta melhor a mensagem (porém sobre outro ângulo) é Fahrenheit 451. Veja, em Fahrenheit há um bom desenvolvimento de personagem, com Montag, que antes era um agente do Estado, se tornando uma especie de revolucionário, e um excelente plot logo no começo. No começo do livro, logo na primeira parte, ocorre um dialog entre Montag e seu chefe, capitão Beatty, que nos revela o porquê de livros serem tão perigosos.

Eu recomendo fortemente a leitura desse dialogo na integra, contudo, eu preciso deixar o seguinte trecho registrado, porque ele esbarra no erro fundamental do texto de Stallman: Não deixar claro quem e porque a sua distopia aconteceu.

[…] Ai está, Montag. A coisa não veio do governo. Não houve nenhum decreto, nenhuma declaração, nenhuma censura como ponto de partida. Não! A tecnologia, a exploração das massas e a pressão das minorias realizaram a façanha, graças a Deus. Hoje, graças a elas, você pode ficar o tempo todo feliz, você pode ler os quadrinhos, as boas e velhas confissões ou os periódicos profissionais.

Admirável Mundo Novo

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Spoilers de Admirável Mundo Novo abaixo

Antes de falar qualquer coisa sobre o livro gostaria de dizer que esta obra é o sonho molhado de um positivista eugenista. Huxley escreveu a materialização absoluta de uma sociedade “cientificamente hierarquizada”, onde cada ser humano é designado e moldado a pertencer uma determinada casta que atende a um determinado setor da sociedade. Apesar disso, não há espaço para grandes pensadores ou grandes heróis em tal sociedade. Há apenas a grande massa, cumprindo seu papel de nascimento, sem nenhum sofrimento (a principio), inclusive com esta sendo constantemente dopada por uma droga, soma, para permanecer em um estado de constante “felicidade”.

Se Fahrenheit 451 era a historia Admirável Mundo Novo é o posfacio. É a conclusão final, as ultimas consequências, de aceitar um mundo onde tudo foi sacrificado pelo conforto e pelo prazer. Daria pra escrever um texto inteiro desta, que ainda é a minha obra favorita (e que eu preciso reler, pois infelizmente somente a li uma vez há uns 7-8 anos atrás), contudo, gostaria, igual fiz com Fahrenheit, destacar um simples dialogo que sintetiza, em grande parte, a mensagem do livro.

A titulo de contexto, o trecho do dialogo ocorre nos capítulos 16 e 17 (nesse trecho em especifico, 17), entre Mustapha Mond e John The Savage (ou Mr Savage, rs). Mond é um dos Controllers deste mundo (figura extremamente cínica diga-se de passagem, como fica evidente no dialogo), enquanto John é alguém que nasceu fora daquela sociedade, em uma reserva de selvagens, preservando alguns valores “ultrapassados”. Eis o trecho, proferido por Mond:

Uma das numerosas coisas do céu e da terra com que não sonharam aqueles filósofos é isto - e agitou a mão -; nós, o mundo moderno “Só se pode ser independente de Deus enquanto se tem juventude e prosperidade; a independência não nos levará até o fim em segurança”. Pois bem, agora nós temos juventude e prosperidade até o fim. O que resulta daí? Evidentemente, que podemos prescindir de Deus. ” O sentimento religioso nos compensará de todas as nossas perdas.” Mas não há, para nós, perdas a serem compensadas; o sentimento religioso é supérfluo. E por que iríamos em busca de um sucedâneos dos desejos infantis, se esses desejos nunca nos faltam? De um sucedâneo das distrações, quando continuamos desfrutando todas as velhas tolices até o fim? Que necessidade temos de repouso, quando nosso corpo e nosso espirito continuam deleitando-se na atividade? De consolo, quando temos o soma? De alguma coisa imutável, quando temos a ordem social?

I Have No Mouth, and I Must Scream

Agora, para finalizar, gostaria de dar um exemplo de obra que, apesar de fugir do tema central, consegue, em pouquíssimas páginas, desenvolver uma trama com personagens envolventes e cenário coerente. I Have No Mouth, and I Must Scream é um curta distopia escrito por Harlan Ellison onde a humanidade sucumbiu fruto de sua própria criação, AM (Allied Mastercomputer/Adaptive Manipulator/Aggressive Menace), uma inteligencia artificial que desenvolveu consciência e se vê em uma eterna tortura por sua condição. Tendo mantido somente cinco humanos, Ted, Benny, Ellen, Gorrister e Nimdok, em uma condição de eterno tormento, onde, além de te-los deformados (física e/ou intelectualmente), AM constantemente os submete a diferentes tipos de tortura como uma forma de se vingar da humanidade.

Não pretendo falar mais sobre a obra, ou sequer deixar um trecho dela como nas outras, pois genuinamente acredito que ela deva ser experienciada primeiro sem nenhum tipo de spoiler. Porém, como dito anteriormente, o autor consegue, em pouquíssimas páginas, criar um cenário absolutamente aterrador, com personagens que você efetivamente se importa se vão ou não conseguir sair de sua condição miserável.

Uma breve conclusão sobre o texto

De novo, Stallman não é um escritor, ele é um ideólogo. Contudo, não sei se isso basta para perdoar a sua escrita. Albert Camus, mesmo sendo filosofo, escreveu diversos romances de boa qualidade literária, como O Estrangeiro ou A Peste, que mantiveram em sua essência a filosofia do absurdo.

Isso torna o texto menos importante? Não. Mas atrapalha a espalhar a mensagem. A propaganda de uma determinada ideia é tão importante quanto ela mesmo. Basta pensar no infeliz fato de que todos conhecem Steve Jobs mas pouquíssimas pessoas sabem quem foi Dennis Ritchie ou Steve Wozniak.

Para além da estética, Stallman também falha em reconhecer/expressar a origem real do problema. A omissão/permissividade, oriunda do principio do prazer, das pessoas foi o que permitiu a existência de tal distopia. Acredito que a seção abaixo consiga aprofundar melhor este ponto.

Algumas reflexões

Agora, está é a seção que esclarece o porquê desse texto já ter nascido póstumo. Já adiantando:

  1. Os eventos descritos no texto aconteceram, ainda que em menor grau.
  2. Não existe solução política real para o problema.

Realpolitik

Realpolitik (“política realística”) é uma teoria política que prioriza o pragmatismo acima de qualquer consideração ética ou ideológica, sendo comumente associada a figuras como Otto Von Bismarck e, em sua roupagem mais moderna, Henry Kissinger. Como elementos chave:

  1. Foco no interesse nacional
  2. Balanço de poder
  3. Pragmatismo acima de ideologia
  4. Flexibilidade e adaptabilidade
  5. Maquiavelismo

Em suma, realpolitik é quando você tem um país democrático (podendo, inclusive, ser consideração o “bastião da democracia”) que decide financiar movimentos revolucionários/contra revolucionários favoráveis aos interesses de sua nação. Ou quando você decide provocar uma guerra com um país vizinho, adulterando certos documentos, para unificar o seu. “Tudo no Estado, nada contra o Estado, e nada fora do Estado” - Eis a síntese prática de tal teoria.

Bem, e por que isso importa? Porque essa é a real natureza do Estado/política. O Estado, como definido por Weber, é o monopólio da violência. Ele defende os seus próprios interesses e da elite que o governa (sendo esta nacional ou internacional), não interessando ética ou ideologia. Ele não se importa com você, com sua família ou nada neste sentido. Seu fim último é sua conservação e expansão.

Portanto, a mera busca por qualquer solução política é inútil. A salvação é individual.

Eventos recentes (ou não tão recentes)

Dedico a seguinte seção para enumerar alguns eventos relativamente recentes para corroborar com a tese anteriormente exposta, citando o rumo recente de outras tecnologias de controle pelo Estado, dessa vez sobre o ar(j)gumento de “Pense nas crianças!“.

Online Safety Act

Nos últimos anos diversos países ocidentais tomaram medidas de vigilância sobre o pretexto de proteção para menores na internet. Alguns exemplos notórios:

  1. Australia
  2. Reino Unido
  3. “Lei Felca”

Cada país tem uma legislação específica quanto a isso, mas, de modo geral, todos implementam um sistema de verificação compulsória e evasiva em qualquer serviço que um menor poderia teoricamente acessar. Isso, evidentemente, abre margem para censura de determinadas mídia, risco de vazamento de informações e o seu uso posterior para chantagem ou fraudes, e o fortalecimento das Big Techs e empresas de biometria.

Para todos aqueles que querem um aprofundamento sobre como o Estado se porta como benfeitor para expandir o seu poder, recomendo uma pesquisa sobre o que foram as Crypto Wars. E, por fim, a leitura de “Porque eu escrevi o PGP”, de Philip R. Zimmermann.

Um breve monologo sobre a internet em si e como chegamos aqui

A internet foi uma invenção incrível. Permitiu o compartilhamento praticamente instantâneo de informação e, graças a isso, permitiu uma revolução jamais vista no que tange a globalização e acesso ao conhecimento. No começo tudo era federado, sem o domínio de um conglomerado de empresas. Contudo, esse modelo tinha problemas. Poderia ser consideravelmente difícil achar um determinado conteúdo, dado que mecanismos de busca (indexadores) praticamente não existiam. Por consequência, por mais que a informação efetivamente existisse, ela não era tão facilmente acessada. Tendo esse problema em vista, surgem os primeiros indexadores, sendo o mais notório, e utilizado até hoje, o google.

Neste modelo federado era comum a utilização de blogs para se expressar. Cada um com uma determinada estética e “fluxo”, permitindo uma expressão mais precisa, pessoal e real de cada individuo. Contudo, esse modelo também tinha problemas:

  1. Falta de interatividade: Em um blog você somente consegue interagir por meio de uma aba de comentários, não tendo muitas outras opções para se expressar.
  2. Conteúdo limitado: Como citado anteriormente, achar informação era uma tarefa complexa sem mecanismos de busca, então você ficava limitado a um conjunto de blogs que ou eram muito conhecidos, ou eram de pessoas próximas ou eram citados em outros blogs que você acessava.
  3. Complexidade técnica: Por mais que existissem na época ferramentas como o wordpress e blogger (da Google), elas poderiam ser vistas para usuário leigo como excessivamente complexas e, para os mais experientes, como limitantes.

Tendo esse problema, “as pessoas querem se expressar e interagir de maneira fácil e, possivelmente, com o maior número de pessoas possível”, em vista surgiram as redes sociais, como o Orkut e o Facebook (Meta). Tiveram outras questões também como o problema do armazenamento e transmissão de videos, de onde surgiu o Youtube (sendo este atualmente também da Google).

Nessa transição, de ambientes federados para ambientes centralizados, personalização foi trocada por conforto. É bem mais simples abrir o Instagram, postar meia duzia de fotos com uma legenda genérica e receber uma quantia de likes, do que criar uma postagem em um blog com as mesmas fotos, um texto mais elaborado e receber menos da metade de interações.

Esse novo modelo centralizado foi perfeito para as massas. Criou um ecossistema completamente novo, onde todos tentam convergir para o mesmo ponto. Não há mais personalidade, e isto é ótimo. Todos estão felizes, certo? Se você desconsiderar a comparação constante causada pela ausência de sofrimentos sem espetacularização, afinal o algoritmo não beneficia isso, ou a ausência de qualquer densidade nos conteúdos, afinal o algoritmo não beneficia isso, ou o doom scrolling, afinal o algoritmo beneficia isso.

Bom, francamente existem pessoas bem melhores do que eu para discorrer sobre as patologias sociais que foram geradas por esse modelo. Céus, até o Kaczynski apresenta, em parte e em um contexto mais amplo, as consequências de um aceleracionismo desenfreado. Mas, de todo a forma, para aqueles que desejam se aprofundar melhor nessa questão, acredito que autores como Byung-Chul Han, Bauman ou até mesmo Chomsky, em certos textos, apresentam melhor a problemática sociedade digital que criamos.

Somos o Prometeu que se queimou com o próprio fogo.

”Lei Felca”

Bem, agora cabe uma breve seção sobre o Online Safety Act tupiniquim.

No dia 7 de agosto de 2025, o youtuber Felca (Felipe Carlos Bressanim Pereira) postou o video “adultização” em que denuncia o uso de crianças para criação de conteúdo online. O video destaca que o algoritmo das redes sociais (mais notoriamente o Youtube e o Instagram) “beneficiavam” conteúdos que poderiam ser utilizados por pedófilos, denunciando assim um descaso das plataformas com relação a isso.

Com o sucesso do vídeo, que hoje conta com mais de 50 milhões de visualizações, houve uma movimentação para a redação e aprovação do que hoje é a Lei 15.211, de 17/09/2025. Na seção anterior já destaquei o quão problemático são leis desse tipo, então gostaria de focar em outro aspecto da questão e falar brevemente sobre o efeito Halo.

Efeito halo é uma tendencia cognitiva que descreve a nossa tendencia de inferir que outras características são positivas a partir de outra. É ele que descreve, por exemplo, o porquê de acharmos uma pessoa bonita mais confiável, associando moralidade/caráter a beleza/estética, ou o porquê de associarmos, por exemplo, que alguém bom em xadrez é também bom em matemática.

Eu acho esse caso um exemplo particularmente interessante to efeito Halo. O youtuber Hytalo Santos, um dos principais denunciados no video, já havia sendo investigado desde 2024 por exposição inapropriada de menores. Diversas pessoas já haviam denunciado tal influenciador, mas somente quando alguém maior e com mais influência o fez que algo efetivamente foi feito.

Lembre-se, quase todas as vezes não interessa o conteúdo da mensagem, mas sim sua forma.

Que Fazer?

Está seção, definitivamente, não é uma conclusão. Ela é um esboço não exaustivo daquilo que deve ser feito. Enumero abaixo não dicas sobre investimento ou meros conselhos, mas sim três aspectos que, por agora, julgo serem os mais urgentes para a nossa sobrevivência:

  1. É mandatório o investimento em infraestrutura que seja resiliente com relação as condições políticas e econômicas da época.
    1. Acredito que os meus dois artigos anteriores, que citei no inicio do texto, sejam um bom começo para isso, porém há muito mais além disso. Pense na crise de hiperinflação da década de 90 no Brasil, ou nas consequências Patriot Act de 2001, como a mera existência de algo como o XKEYSCORE.
  2. É mandatório o investimento em boas pessoas (não em sentido moral, apesar disto ser condição necessária e suficiente para a não degeneração da comunidade, mas em sentido técnico).
    1. A Grécia antiga não existe mais, já Platão permaneceu eterno.
  3. É mandatório o desenvolvimento pessoal em todas as áreas possíveis (e com isso me refiro ao domínio técnico puro, psicológico, estético, dentre muitos outros).
    1. Não espera “cavalgar o tigre” sendo fraco.

Acredito que esses três pontos, por mais abrangentes que sejam, sintetizam bem aquilo que deve ser feito. Conforme os (muitos) anos que se seguem, trarei de justificar e explicitar melhor cada um desses pontos, como justificar o primeiro através de um mix entre a praxeologia de Mises e a hipótese da economia (mercado financeiro, mais especificamente) ser uma Random Walk, ou, sobre o terceiro ponto, falar sobre aspectos como efeito Halo (para justificar a necessidade da estética e boa aparência) ou o experimento da prisão de Stanford associado a tese da banalidade do mal.

muito trabalho a ser feito.


Recursos utilizados na elaboração do texto